A influência das redes sociais no Direito

Nada será como antes. A emergência de novos instrumentos digitais vai influenciar, mudar e colaborar com o Direito. Que se alimenta na verdade - e essa, agora, está mais perto de todos nós.

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I. Conhece-te a ti mesmo

Para os antigos, o grande objetivo da sabedoria é o ‘conhece-te a ti mesmo’. Mas como nos conhecer? Uma primeira opção, por óbvia e fácil, é nos ocupar em conhecer aos outros e com este conhecimento, tentar conhecer mais de nós. Muito difícil, de qualquer forma. Tanto uma como outra tarefa apresentam tantas variáveis que, em resumo, acabamos por viver de meras percepções, da intuição, de aparências, de informações contaminadas pelos diversos interlocutores que agem sobre elas.

II. Entra a internet…

…e nela as redes sociais, os sites de relacionamento, os eróticos e pornográficos. Como somos, como nos comportamos quando ninguém está olhando? Quando estamos sós, nós e nossa curiosidade, nossos desejos díspares, nossos impulsos desconhecidos?

Alguns autores se dedicaram ao assunto. E o que eles descobriram é do interesse de todos que entendem a importância de se conhecer.

Ogi Ogas e Sai Gaddan, PhDs em Computational Neuroscience pela Universidade de Boston conseguiram acesso a um grande número de sites eróticos e pornôs e estudaram o que as pessoas procuram, apreciam e escreveram: ‘A Billion Wicked Thoughts’. O ser humano que aparece é surpreendente, embora não estranho.

Regina Lynn, colunista da Wired, in ‘The Sexual revolution 2.0′, demonstra como encontrar novas pessoas pela internet é uma tendência saudável, irreversível e acrescento eu, segura, efetiva e mais profunda do que qualquer outra forma de conhecimento anterior.

Christian Rudder, matemático por Harvard e um criador do site de relacionamento OkCupid, vai além e mostra através das informações colhidas em seu site quem somos, quando pensamos que ninguém está olhando…: “Who We Are – When We Think No One’s Looking”.

III. O reflexo no espelho

Em resumo, hoje detemos instrumentos de investigação objetiva de quem somos, muito mais precisos, em todos os sentidos.

O Facebook, este ‘Espelho de Narciso’ contemporâneo, como muitos autores o denominam, e hoje com quase um bilhão e meio de inscritos, fornece tantas novas informações, que apenas computando os “likes” (curtidas) que damos, por exemplo, há como se saber com certeza quase absoluta uma série de informações.

Dou meu testemunho. Antes das redes sociais percebia a mim e os outros de uma forma, que considerava mais ou menos satisfatória. Com as redes sociais, o Facebook especialmente, pude perceber com uma clareza insuspeitada que muitas das pessoas que julgava interessantes, inteligentes, atualizadas não eram nada disso, julgando-se pelo que colocavam no site. Muitas vezes, bem ao contrário. Como pude me enganar tanto? E, paralelamente, gente com quem não tinha a menor afinidade, ou simpatia, passou a me interessar muito, pela qualidade de suas opiniões, visões, posturas. Mesmo eu, surpreendo-me quando voltando alguns anos na ‘linha do tempo’, observando postagens das quais mais não me lembrava: fui eu mesmo que escrevi isso? Legal, se não estivesse aqui, documentado, não me reconheceria!

IV. E o que isto tudo tem a ver com o Direito?

É a questão que deixo aos prezados leitores. O que a emergência de novos instrumentos, mais precisos e em alguns casos absolutos de conhecimento de quem somos, vai influenciar, mudar, contestar, colaborar com o Direito?

Certamente algumas assumpções sobre o ser humano têm obrigatoriamente de ser revistas. Não somos exatamente como pensávamos ser.

No campo da biografia, não há como escapar do tudo que é arquivado a cada momento de cada um. Dar um ‘google’ é o primeiro passo para informar-se sobre algo ou alguém. Sabe-se de diversos agentes, entre eles empregadores, head-hunters etc que avaliam e monitoram a atividade na internet de todos que lhe interessam.

Nada será como antes, agora. Não tenho a menor dúvida que os valores fundamentais do Direito não só permanecem como se reforçam. O Direito se alimenta na verdade e essa agora está mais perto de nós.

Goffredo diz que “o bacharel em Direito é um cientista da sociabilidade humana. Sim, um cientista da Disciplina da Convivência”. Nunca tivemos tantos instrumentos de convivência como hoje. Com a palavra, as/os que diariamente se reúnem via internet.

*Oswaldo Pepe é pós-graduado em comunicações na ECA e fundador da agência Art Presse Comunicação Empresarial.