Um media training pode melhorar o desempenho de um candidato à Presidência da República?
Ouvi essa pergunta de um colega experiente. Em um primeiro momento, estranhei a dúvida. Pensando melhor, porém, percebi que ela não era totalmente sem sentido.
A pergunta surgiu depois que a Art Presse foi procurada por um candidato à Presidência da República. O pedido era urgente: “Quero — preciso — fazer um media training.”
Havia uma razão concreta para a pressa. O candidato teria, em poucos dias, uma série de entrevistas com jornalistas experientes de grandes veículos de comunicação.
O primeiro problema apareceu logo na largada: ele não tinha tempo. A bateria de entrevistas começaria praticamente em seguida. A assessora, tentando encontrar uma solução, anunciou: “Conseguimos uma hora com ele.”
Declinamos.
Media training: simulações de entrevistas
Uma hora pode servir para uma orientação pontual antes de uma entrevista. Não é suficiente, porém, para um media training inicial consistente.
Um bom treinamento exige tempo para identificar vulnerabilidades, mapear temas sensíveis, testar argumentos e, principalmente, realizar sucessivas simulações de entrevistas, seguidas de análise e correção. Idealmente, reservamos um dia inteiro. No mínimo, quatro horas.
E não se trata de um treinamento confortável. Ao contrário. Um media training eficaz precisa colocar o entrevistado sob pressão. Perguntas difíceis, interrupções, insistência, mudança repentina de assunto e questionamentos sobre pontos vulneráveis fazem parte do processo. Dependendo do caso, o treinamento também pode exigir uma equipe multidisciplinar, reunindo profissionais de comunicação, especialistas em conteúdo e advogados.
Nesse sentido, o candidato que nos procurou estava certo ao perceber que precisava se preparar.
Por mais sólida que seja sua formação intelectual, política ou profissional, uma campanha presidencial muda completamente a exposição de uma pessoa. A partir daquele momento, cada frase, hesitação, reação, expressão facial ou comentário pode ser observado, recortado, compartilhado e interpretado.
O jornalista, por sua vez, fará o seu trabalho: questionará, confrontará informações, buscará inconsistências e insistirá justamente nos temas em que perceber respostas frágeis. Em uma campanha eleitoral, essa pressão tende a ser ainda maior.
Argumentos
Media training não serve para ensinar alguém a esconder o que pensa nem para fabricar respostas artificiais. Serve para preparar o entrevistado para comunicar com clareza aquilo que realmente pensa, sustentar seus argumentos sob pressão e evitar que a forma comprometa o conteúdo.
Então, voltando à pergunta inicial: um media training melhora o desempenho de um candidato à Presidência da República?
Sim. E, em uma campanha de alta exposição, pode fazer uma diferença considerável.
Treinamento é parte essencial de praticamente toda atividade de alto desempenho. Na comunicação pública não é diferente. Porque, diante das câmeras, não basta ter conhecimento, experiência ou boas propostas. É preciso também saber comunicá-los.



