O efeito Trump: falar ou não falar com a imprensa?

O efeito Trump: falar ou não falar com a imprensa?

Em tempos de questionamento sobre a efetividade da mídia tradicional, vale observar o caso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Pouco afeito às convenções do mundo digital — um dinossauro da era mesozoica -, Trump tornou-se um fenômeno nas redes sociais. Paradoxalmente, uma das principais razões desse sucesso é justamente sua disposição para falar com a imprensa.

Antes de iniciar seu primeiro mandato, em janeiro de 2017, Trump tinha 20,7 milhões de seguidores no então Twitter. Ao longo do governo, percebeu a relevância do microblog como ferramenta de comunicação direta com a população e passou a utilizá-lo para pautar a mídia tradicional, muitas vezes atropelando a própria assessoria de imprensa. Hoje, sua presença digital alcança números expressivos, mesmo após o banimento de sua conta original, que reunia 88,9 milhões de seguidores em 2021.

No segundo mandato, Trump acelerou essa estratégia. Ampliou sua atuação para além dos veículos tradicionais e incorporou ao seu ecossistema de comunicação a chamada mídia alternativa, com influenciadores, creators e podcasters.

Mas o principal motor de sua exposição continua sendo um recurso tão antigo quanto eficaz: a disponibilidade para falar com jornalistas, especialmente em interações breves e informais, no estilo do que chamamos no Brasil de “quebra-queixo”.

São conversas improvisadas diante do helicóptero presidencial, nas chamadas chopper talks, nos corredores da Casa Branca ou no Salão Oval. Nesses encontros, Trump responde a perguntas, provoca os repórteres, apresenta suas versões dos fatos e produz declarações que rapidamente repercutem nas redes sociais e nos noticiários.

Os dados levantados pela cientista política Martha Joynt Kumar, pesquisadora da mídia presidencial e diretora do White House Transition Project, ajudam a dimensionar essa estratégia.

Primeiro mandato do Trump

Em 2017, primeiro ano de seu primeiro mandato, Trump manteve uma média de quase duas interações por dia útil com jornalistas. Na maioria das vezes, eram conversas rápidas com os correspondentes da Casa Branca antes de viagens, reuniões de gabinete ou cerimônias de assinatura de decretos.

Essas interações, porém, representavam apenas uma parte de sua relação com a imprensa. No primeiro mandato, Trump concedeu entrevistas formais a emissoras de televisão de grande alcance — especialmente à Fox News —, rádios e jornais. Também participou de coletivas de imprensa e pronunciamentos, tanto individuais quanto ao lado de líderes internacionais em visita aos Estados Unidos.

No segundo mandato, a intensidade dessa relação aumentou. Trump manteve as conversas informais e ampliou significativamente sua frequência, superando os números do primeiro governo. Segundo os levantamentos de Kumar, as entrevistas informais passaram de 128 para 327, enquanto as entrevistas formais subiram de 95 para 153.

Os números revelam um aspecto particularmente interessante: enquanto muitos chefes de Estado procuram evitar perguntas difíceis e encerrar rapidamente o contato com os jornalistas, Trump prolonga as interações.

No segundo mandato, algumas dessas conversas chegaram a registrar médias de até 23 minutos de diálogo aberto com os repórteres. Isso não significa, necessariamente, que o presidente responda a todas as perguntas ou aceite as premissas dos jornalistas. Significa, porém, que ele permanece diante das câmeras e oferece continuamente novos conteúdos para a cobertura jornalística.

Outro hábito chama a atenção: a disposição de Trump para atender diretamente ao telefone. Para desespero de seus assessores, o presidente recebe ligações de jornalistas e correspondentes de diferentes perfis editoriais, tanto de veículos conservadores quanto de grandes jornais críticos à sua gestão.

Com isso, mantém canais diretos de contato com a imprensa e amplia as oportunidades de exposição.

Imprensa é ingrediente para o digital

O resultado aparece também nas redes sociais, onde Trump reúne milhões de seguidores em diferentes plataformas, do Instagram ao YouTube, passando pelo X, Facebook e TikTok. Cada declaração, entrevista ou conversa informal pode ganhar vida própria no ambiente digital, multiplicando o alcance de uma interação originalmente destinada a um grupo de jornalistas.

Trump representa, portanto, um caso emblemático de integração entre comunicação tradicional e digital. Sua estratégia contraria a ideia de que, para conquistar relevância nas redes sociais, políticos precisam contornar a imprensa ou substituir os veículos jornalísticos por canais próprios.

Em vez disso, ele utiliza o contato frequente com os jornalistas como fonte permanente de conteúdo, repercussão e visibilidade.

É claro que disponibilidade não significa, por si só, transparência, qualidade da informação ou credibilidade. Tampouco garante uma cobertura favorável.

Trump frequentemente critica jornalistas e veículos de comunicação, como fazem, em diferentes graus, presidentes de distintas orientações políticas.
Ainda assim, sua disposição para manter o contato, mesmo em situações de confronto, oferece uma lição importante sobre a dinâmica da comunicação contemporânea.

Para políticos, empresários e executivos que consideram a imprensa um interlocutor incômodo (e é) ou preferem restringir ao máximo o contato com jornalistas, o caso merece reflexão. Em uma época em que tantas organizações procuram conquistar espaço no ambiente digital, Trump demonstra que a mídia tradicional continua capaz de gerar visibilidade, pautar conversas e alimentar a circulação de conteúdo nas redes sociais.

A pergunta, portanto, talvez não seja se vale a pena falar com a imprensa, mas como fazê-lo de maneira estratégica. Afinal, mesmo na era dos influenciadores, dos podcasts e dos algoritmos, uma declaração diante de um repórter ainda pode alcançar milhões de pessoas.

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