A vida dos comunicadores – profissionais de relações públicas e assessoria de imprensa – não costuma ser fácil durante tempos normais. Mas e quando participam de governos em guerra?
O Brasil não participa de uma guerra há 81 anos. Eu, tampouco, jamais fui chamado para atuar como assessor de um país em guerra. Sou bisneto do general de brigada Tertuliano Potiguara, enviado pelo Brasil para participar da I Guerra Mundial, onde liderou uma missão militar com 24 oficiais na França.
Minha sócia na Art Presse, Nira Worcman, participou indiretamente da guerra entre Israel e o Hamas; acompanho o seu trabalho incessante de correção de erros cometidos pela cobertura da mídia onde observei na prática que em uma guerra, a verdade costuma ser sempre a primeira vítima.
Listei abaixo algumas observações sobre como enxergo a questão do papel e atuação dos assessores de imprensa – ou melhor, dos “porta-vozes” (como a Karoline Leavitt, dos EUA ou o Daniel Hagari, o contra-almirante que é porta-voz das forças de defesa de Israel) – que têm esta missão.
Primeiro, o óbvio. Para que o assessor tenha algum êxito em sua função, o ideal é que participe das decisões. Quando a voz do assessor não é levada em conta, ele fica vulnerável e perde a capacidade de planejamento e estratégia.
Guerra de versões
Quando um assessor está fora do centro de decisões e recebe dados distorcidos, sua prioridade deixa de ser apenas informar e passa a ser de gestor de danos e verificação.
Em casos como esses, os assessores têm como alternativa estabelecer camadas de proteção (para resguardar a sua reputação e de seu país) e atribuir a informação a quem de direito. Ou seja, não se deve assumir a autoria de informações as quais não há condições de verificação.
Neste caso, os assessores devem conduzir a comunicação com frases atribuídas às fontes como “de acordo com o comunicado oficial do comando X…” ou “o Exército afirma que…”..
Um bom assessor precisa ter uma equipe consistente e sintonizada. Ter “olhos e ouvidos” em outros lugares, fontes paralelas para comparar as informações oficiais com agências de inteligência, jornalistas em campo e organizações humanitárias.
Caso o assessor encontre informações discrepantes, precisa sinalizar imediatamente aos seus superiores, sem emitir juízo de valor imediato. O importante é que o comando militar, ou político, entenda o papel agnóstico do assessor e a sua imensa responsabilidade.
Deve-se sempre fazer um trabalho de educação do time interno. É fundamental informar constantemente os superiores que divulgar informações distorcidas ou exageradas pode afetar a reputação de um país, ainda que reputação e guerra, em muitos casos, seja um oxímoro.
Agora, o que fazer ao receber uma informação falsa? Neste caso, recomendamos que se questione a fonte dentro do comando militar e se peça evidências (fotos, coordenadas, horários). Muitas vezes, pode ser uma questão simplesmente burocrática, não intencional.
Se for possível, mesmo com a imensa pressão, deve-se retardar a saída da informação. Porque na dúvida entre ser o primeiro ou ser o correto, em contextos de guerra, a divulgação de uma fake news pode custar vidas ou causar pânico desnecessário.
Comunicação do erro
Há, ainda, a questão do erro. O assessor tomou todos os cuidados, checou e re-checou e, mesmo assim, a informação e o comunicado saíram com informações erradas. O que fazer?
Neste caso, a central de comunicação deve corrigir o erro e com transparência. Há sempre a tentação de se “apagar” o erro, achar que ninguém viu. Em tempos digitais, a melhor atitude é publicar a atualização o mais rápido possível destacando o que mudou e citando a fonte original (o comando militar, por exemplo) que retificou a informação.
Os superiores ouvem bons assessores de imprensa. O trabalho de um comunicador é se posicionar e trazer dados de inteligência que apontem riscos e tendências.
Com dados de inteligência preditivas, o assessor terá a ancoragem suficiente e embasada para mostrar ao comando militar ou político, que informações erradas destroem a guerra da narrativa.
Definitivamente, guerras são ganhas neste terreno e não no campo de batalha. Por isso é que se recomenda que a decisão final venha de um político experiente que tenha a visão da importância derradeira da narrativa.



